Em muitas situações da vida as listas mexem com as cabeças das pessoas, inclusive, naqueles casos em que se nominam até os que literalmente podem perder as cabeças.

Neste modelo, certamente tornou-se famosa e não menos temível a lista que carregava no bolso do colete Louis Antoine Léon de Saint-Just, revolucionário francês eleito membro do Comitê de Salvação Pública, em 1793, quando se destacou como implacável acusador dos nobres aprisionados durante a Revolução Francesa e, por fim, guilhotinados às pencas naquele período denominado como “Terror”.

Foi o enorme talento retórico do sectário Saint-Just, apelidado como “Arcanjo da Revolução”, que levou à guilhotina o rei Luís XVI, a rainha Maria Antonieta e outros tantos de “sangue azul” (“não se pode reinar inocentemente” e “todo rei é um rebelde ou um usurpador”, repetia ele). Sua lista era temida e ninguém queria dela fazer parte, até que chegou o 10 Thermidor (décimo-primeiro mês do Calendário Revolucionário Francês, que vigorou de 22 de setembro de 1792 a 31 de dezembro de 1805, e correspondia ao período entre 19 de julho e 17 de agosto do Calendário Gregoriano), quando “L'archange de la Terreur”, com apenas vinte e seis anos de idade, junto com outros partidários de Maximilien Robespierre, teve o mesmo trágico e patético fim de tantos que condenou à guilhotina.

Entretanto, noutra lista famosa todos queriam entrar: a Lista de Schindler. Com efeito, num gesto inexplicável, o Oskar Schindler, o industrial alemão, espião e membro do Partido Nazista, salvou da morte, em campos de concentração, mais de 1200 judeus que empregou em sua fábrica de esmaltes e munições, instalada em Cracóvia, durante a Segunda Guerra Mundial e que compunham uma lista de pessoas por ele requisitadas às autoridades nazistas para trabalhar naquela unidade industrial que fazia parte do esforço de guerra alemão.

Na verdade, de princípio ele queria apenas explorar a mão de obra judia, bem mais barata, embora tenha posteriormente aderido à causa da salvação daqueles que, no futuro, passariam a ser conhecidos como os “judeus de Schindler”. Herói do povo judeu, Schindler tem protagonizado varias obras artísticas e científicas, inclusive o famoso filme de Steven Spielberg, A lista de Schindler, ganhador de sete Óscares, inclusive o de melhor filme, ademais de merecer o título que lhe deu o Estado de Israel de "Justos entre as nações".

Essas listas, uma ruim e outra boa, são lembradas, aqui, apenas para enfatizar a expectativa que tem causado a divulgação da lista com os nomes de (mais ou menos quarenta) personalidades políticas brasileiras supostamente envolvidas no mega escândalo da Petrobrás, recentemente encaminhada pelo procurador-geral da República, Rodrigo Janot, com pedido de abertura de investigação, ao ministro Teori Albino Zavascki, do Supremo Tribunal Federal, relator dos processos que envolvem a chamada “Operação Lava-Jato”, que investiga a corrupção ocorrida na maior empresa estatal brasileira.

É a “lista de Janot” - na verdade, são 28 pedidos de abertura de inquérito contra 54 pessoas, algumas com mandatos parlamentares outra não, porém, que teriam sido beneficiárias do esquema de desvio de recursos da Petrobrás, feitos pelo procurador-geral da República à frente de uma força tarefa formada por mais 11 procuradores da República – que está a tirar o sono de muita gente. Por expressa determinação legal, caberá ao ministro Zavascki divulgá-la ao tempo em que deverá autorizar a abertura dos inquéritos. Curioso é que a Lista de Janot, além do galicismo do nome, tem muito a ver com Saint-Just e nada com Schindler.

Por enquanto a Lista de Janot causa enorme frisson nos meios políticos da capital da República e constitui um autêntico segredo de Polichinelo, na medida em que já são por demais conhecidos todos os ilustres nomes que a adornam, em especial, os dos atuais presidentes da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, e do presidente do Senado Federal, Renan Calheiros. Curiosa a coincidência, com lembra o jornalista Ricardo Rosado, em nota publicado no blog Fator RH, de que nessa lista figurem os senadores Fernando Collor de Mello e Lindberg Farias, entre os beneficiários dos recursos desviados da Petrobrás: Collor foi apeado da presidência da República através de impeachment, acusado de corrupção; o jovem senador Lindberg Farias (PT-RJ), foi um dos principais líderes do movimento estudantil dos caras-pintadas contra o então presidente Fernando Collor de Mello.

Agora, ao que parece, companheiros de infortúnios dividirão o mesmo banco dos réus. Aliás, todo esse imbroglio que abala esta República tupiniquim nos remete àquela sentença de Marcus Tullius Cicero, na sua Primeira Oração contra Catilina: “O tempora, o mores! Senatus haec intellegit” (“Ó tempos, ó costumes! O Senado sabe dessas coisas.”).

Nós outros, comuns mortais, também merecemos saber.

* Paulo Linhares é Doutor em Direito Constitucional, Advogado Militante. Articulista do site/portal www.novoeleitoral.com.

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