No movediço mundo da política, é sempre desejável manter uma distância segura em relação a certas pessoas, mesmo que sejam correligionárias ou simples aliadas. Isto cai como uma luva à aliança política que une Dilma Rousseff (PT) com o atual presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB).

Ora, esse parlamentar carioca tem sido uma dos mais ferrenho opositores do governo Dilma, embora o seu partido seja condômino deste, porquanto o vice-presidente da República, Michel Temer, não apenas é o dirigente maior do partido de Eduardo Cunha como está investido da condição de articulador político do Palácio do Palácio do Planalto. E isto não chega a impedir que, sem trocadilho infame algum, seja este literalmente uma cunha no claudicante coração do governo Dilma.

A verdade é que em momento algum Cunha tergiversou quanto à ojeriza que guarda não apenas relativamente à Dilma como a todos os petistas que existiram, existam ou venha a existir. É bem certo que no período de sua eleição à presidência da Câmara adoçou o discurso, dando a entender que sua relação com o Planalto seria amistosa. Coisa nenhuma! Proclamada a sua eleição, mais que depressa desceu o “cipó” de jucá nos costados da “aliada” Dilma e assim tem procedido até hoje. Eduardo Cunha tem articulado as pesadas derrotas que sofreu o governo Dilma, na Câmara dos Deputados, nos últimos sete meses.

No entanto, o deputado Eduardo Cunha, para surpresa geral da nação, anunciou nessa última sexta-feira, dia 17 de julho de 2015, que finalmente teria rompido com o governo Dilma. Todavia, deixou de lembrar que jamais foi aliado desse governo que, aliás, repita-se, também pertence ao seu partido, o PMDB, que não somente ocupa a vice-presidência da República como mantém um (enorme) balaio de cargos do primeiro escalão. Sem dúvida, a presença peemedebista no governo Dilma é bem mais impactante que a dos petistas.

E porque Cunha rompeu (sem nunca ter sido de fato aliado de Dilma)? O móvel desse “rompimento” fora a saia justa em que se meteu após a delação do lobista Júlio Camargo na Operação Lava Jato, da Polícia Federal, acusando-o de ter recebido 5 milhões de dólares em propinas. Por razões mais ilógicas e obscuras, o deputado Eduardo Cunha aponta o governo Dilma como responsável por vazar de depoimentos que envolvam seu nome, sem levar em conta que a Polícia Federal tem, atualmente, uma enorme autonomia nessa matéria e não livra nem mesmo eminentes petistas, a exemplo de João Vaccari Neto, ex-tesoureiro nacional do PT que, com ou sem culpa, amarga rigorosa prisão (preventiva) desde 15 de abril deste.

Mais estranho é que o consultor Júlio Camargo, que nada trem a ver com Dilma e o PT, tenha afirmado em seu depoimento à Polícia Federal que a exigência dos 5 milhões de dólares foi feita pessoalmente por Cunha parta “facilitar” a contratação de navios-sonda para a Petrobrás. E quem vazou os detalhes do depoimento do delator? Certamente alguém da própria Polícia Federal, porém, que não necessariamente teria uma vinculação com Dilma. São gravíssimas as acusações contra Cunha que igualmente fora citado em depoimentos do doleiro Alberto Yousseff.

Essa novela da Operação Lava Jato ainda vai render muito. Eduardo Cunha arma o seu jogo tendo como lastro uma enorme bancada de rebeldes deputados da base do governo Dilma, sobretudo, composta de peemedebistas, bem assim conta com generosa colaboração do que há de mais anti-Dilma na Câmara dos Deputados, inclusive, o ruidoso agrupamento tucano. E atira para todos os lado, pois, enquanto arrola o governo como responsável pela exposição negativa do seu nome, a ponto que anunciou o seu “rompimento formal” contra ele, assesta seus canhões verbais na direção do procurador–geral da República, Rodrigo Janot, que depende da boa vontade de Dilma para continuar no cargo.

Certo é que ainda há muito combustível a ser consumido nessas refregas que ocorrem na lata cúpula do poder federal, sendo arriscado, neste momento, qualquer palpite. Vale a apreensão da espera, pois, os tempos de agora são áspero e muitas vezes incompreensíveis. Afinal, “tudo pode acontecer”, como diz a letra de balada bem conhecida que azucrina nossos ouvidos e esgota a nossa paciência. Aguardemos os próximos capítulos.

Outros textos do autor:

O grego de cada um

Mensalão revisitado

Justiça: vingança e delação

Dilma e as "pedaladas"

As desigualdades e seus dilemas

* Paulo Linhares é Doutor em Direito Constitucional, Advogado Militante. Articulista do site/portal www.novoeleitoral.com.

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