Depois de um longo período sem escrever, retorno a este espaço, trazendo como primeiro texto uma meditação sobre a vida, as conquistas, o êxito e toda sorte de sucesso nas mais variadas empresas a que nos propomos aventurar, mais que isso, um reconhecimento, agradecimento e homenagem a todos quanto se doam pelo sucesso alheio.

Bem verdade que não é pequena a nossa vontade em tratar de questões atuais e necessárias ao nosso Estado como: ética pública, eleições 2016, reforma eleitoral, combate à corrupção e etc., contudo, deixo para fazê-lo em textos que se seguirão a este, entendendo que convêm fazer lembrar, antes de tudo, que jamais conseguimos coisa alguma em nossa vida particular, quiçá na republica, por nós mesmos.

Aliás, nada mais farei aqui do que trazer à memoria o que bem é ensinado pela historia de qualquer grande personagem que a marcou, o que, anteriormente, procurei fazer, de forma resumida, em discurso em nossa Colação de Grau, do curso de Direito, quando, naquela ocasião, falei de Isaac Newton (1643-1727), Edmund Halley (1656-1742) e Robert Hooke (1635-1703) e os fatos que antecederam à publicação do Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural) de 1687, que consagrou o professor de Cambridge e que, ainda hoje é considerado uma das obras científicas mais importantes da história.

Todos certamente conhecem a genialidade de Isaac Newton, mas, o que poucos sabem é que, caso não fosse pelo Astrônomo Edmund Halley, suas incríveis descobertas jamais teriam sido divulgadas e, quem sabe, outras tantas que se seguiram a elas e por elas, feitas por outras mentes brilhantes como Albert Einstein e sua Teoria da Relatividade, não teriam acontecido.

A história destes dois grandes cientistas - e amigos - do Século XVII começa com uma discussão entre membros da Royal Society of London for the Improvement of Natural Knowledge (Real Sociedade de Londres para o Melhoramento do Conhecimento Natural), naquele momento, a principal instituição cientifica do mundo, fundada em 28 de novembro de 1660 e cujo lema “Nullius in verba”, algo que pode ser entendido como “Não Apenas em Palavras”, orientou desde então, praticamente todas as grandes descobertas cientificas dos últimos quatro séculos.

Pois bem, viajemos até 1683, para testemunhar o encontro, em um café de Londres, entre: Christopher Wren (1632-1723), Arquiteto, astrônomo, físico e matemático, celebre fundador da Royal Society e seu presidente (1680 -1682), que ficou mais conhecido por seu trabalho sobre a reconstrução de Londres depois do incêndio de 1666 e a construção da Catedral de St. Paul, na Inglaterra; Robert Hooke (1635-1703), talvez o mais famoso cientista de então, descobridor da célula, criador da Lei da Elasticidade, batizada com seu nome, ao qual também é atribuída a junta universal, e a descoberta da primeira estrela binária, entre outras; e Edmund Halley (1656-1742), Astrônomo, Geografo, Geômetra, Meteorologista e Físico, cujas descobertas e feitos me furto a citar por serem inúmeras, bastando mencionar o fato de ter ele mapeado o céu do hemisfério sul e de ser o primeiro astrônomo a teorizar que os cometas seriam objetos periódicos e previu que no ano de 1758 um cometa cruzaria o Sistema Solar. Devido a essa previsão, o cometa passou a ser chamado, em sua homenagem, cometa Halley.

Neste, e em outros encontros, tratavam de um grande mistério: por que os astros celestes se movem e como se movem? Que força os forçá a se mover dessa ou daquela forma? Como tal funcionava? Em meio às discussões, Robert Hooke afirmava já haver feito tal descoberta, sem, contudo, apresentar qualquer prova.

Meses se passaram e ele não apresentou qualquer prova para suas alegações, apoiando ou buscando se apoiar no fato de ser presidente da Royal Society, não se sabe, fato é que, em um dia de Agosto de 1684, Edmund Halley visita um jovem professor em Cambridge, Isaac Newton que, anos antes, havia jurado nunca mais publicar e apresentar suas descobertas na Royal Society, face um forte desentendimento com o Sr. Hooke, pelas suas descobertas a respeito do espectro de luz.

Para surpresa do Astrônomo, Newton lhe diz de plano que já tinha respondido a questão do movimento dos astros celestes há vários anos, o que provou, enviando um artigo com as fórmulas matemáticas, o que deixou o Sr. Halley atônito. O universo todo fazia sentido!

Edmund Halley então, contra toda resistência e paranoia de Isaac Newton, conseguiu convencê-lo a publicar suas descobertas, a base da ciência moderna, e não só isso, levou e advogou por ele junto à Royal Society, para que esta publicasse o livro.

Aqui, surge mais um revês na vida do Sr. Newton, o qual perdeu o pai pouco antes de nascer, foi abandonado pela mãe logo depois, a qual só retornando a ele quando este já tinha doze anos, trazendo consigo um novo marido e irmãos, não dando ao jovem o mínimo de atenção e afeto, na escola, foi ele hostilizado por tirar notas baixas em certas disciplinas, chegando na acusação infundada de Hooke sobre a questão da luz. Agora, se deparava o mais extraordinário pensador cientifico de seu tempo com mais este infortúnio, a Sociedade Real não tinha fundos para a publicação e Newton não tinha, ou mesmo, se negava a investir um shiling sequer para cobrir tais custos. Isso mesmo, Isaac Newton era o que podemos chamar de mão fechada.

Sem qualquer interesse que não fosse ver aquelas descobertas ao alcance de todo o mundo, Edmund Halley custeou do seu próprio bolso a publicação da primeira edição da Philosophiae naturalis principia mathematica (Princípios Matemáticos da Filosofia Natural). Diga-se, ele não era um homem de grandes posses, ainda mais que, devido a problemas da Sociedade com a baixa venda do livro The History of Fishes (A História dos Peixes), passou a receber seu salário em cópias do livro, não estando, na época, em uma situação financeira confortável.

Não bastasse, na medida em que Robert Hooke continuava acusando Newton de roubar sua descoberta, Edmund Halley e Christopher Wren o confrontam exigindo que, ou provasse ou se calasse, afinal, Nullius in verba, “não apenas em palavras”, pondo assim um fim na história.

Halley também passou a ser quase que o psicanalista de Newton, controlando mesmo a sua paranoia, e ajudando-o a se tornar o maior gênio de seu tempo, vindo a ser também, após a morte de Hooke, Presidente da Royal Society.
Sem Edmund Halley, o recluso Isaac Newton e toda sua genialidade teriam se perdido na obscuridade do anonimato, reservados a poucos conhecidos e alunos seus em Cambridge, jamais tendo sido vistos e, no mínimo, adiando em décadas, as ideais que viriam a ser a fundar as bases da ciência moderna.

Ora caro leitor, nenhum de nós é dono de nossas conquistas na totalidade. Nossos êxitos dependem da contribuição de “Halleys” que nos incentivam, instruem, ajudam das mais variadas formas. Erramos quando a nossa vaidade nos leva a achar que somos suficientes para enfrentar o mundo por nós mesmos, afinal, até Alexandre Magno precisava contar com seus homens, Einstein tinha sua esposa que revisava seu trabalho, Marx tinha Friedrich Engels que, além de contribuir com seu intelecto na construção da teoria marxista, também susteve a família de Marx, entre tantos outros exemplos que poderíamos invocar. Ele (O Grande) não venceu sozinho o império Persa e assim conquistou a Ásia.

Nesse ano que começa devemos lembrar que até os maiores gênios só alcançaram as estrelas porque tiveram a ajuda de outros, tão grandes gênios ou não tanto assim, para sustentá-los.

Em nossa trajetória, durante a graduação em Direito, poucas não foram às vezes em que sofremos reveses, em alguns casos, enfrentamos oposições de “Hookes” que muito nos teriam prejudicado se não fossem os “Halleys”, os quais não foram poucos, e é a estes que deixamos nossos mais sinceros e profundos agradecimentos.

Que fiquem certos de que, em tudo o que fizermos de bom em nossas vidas, terão eles parte, pois, sem eles, não chegaríamos até onde chegamos.

Com bem disse Isaac Newton: Se eu vi mais longe, foi por estar sobre ombros de gigantes.

Que possamos agradecer e reconhecer aqueles que possibilitaram que chegássemos tão longe e os façamos orgulhosos.

Samir Albuquerque É Advogado, servidor público federal, membro do Movimento Nacional Reforma Política Democrática e Eleições Limpas e colaborador do site/portal www.novoeleitoral.com

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