Por Herval Sampaio e Joyce Morais

Este período de final de ano nos impõe uma reflexão sobre o que ocorreu de positivo e negativo. Nessa linha, tivemos com certeza uma evolução muito grande no combate à corrupção, contudo a luta que devemos sempre empreender se encontra na conscientização das pessoas, dentre estas, as crianças e jovens, que pela educação cívica podem mudar a realidade atual.

Entretanto, para que isto venha ocorrer, precisamos fazer a nossa parte e agora, pois o tempo urge e o momento é mais do que propício para acabarmos com os velhos exemplos do “jeitinho brasileiro”. Nossos filhos não podem mais aprender tal “jeitinho”, pois este muitas vezes nada mais é do que corrupção e esta quando praticada como normal, inclusive pelas crianças e jovens forma toda uma geração tendenciosa a corrupção.

Corrupção, então, tem sido um tema que cada vez mais recorrente nos noticiários jornalísticos, programas de televisão, rádio, internet e rodas de conversa entre amigos e familiares. Por isso, é importante se pensar que as crianças não estão alheias a esses tristes acontecimentos e o momento atual de crise se figura como uma ótima oportunidade para conversar com esses jovens sobre cidadania, democracia e corrupção, como inclusive temos feito no Cidadania na Escola.

Os valores, princípios, e ações do cidadão enquanto parte da sociedade devem ser pensados com consciência e retratados às criança, em sua linguagem, ou seja, com a maior facilidade possível, de modo que no seu tempo e modo a mensagem seja passada. Isso é essencial para que elas possam entender as situações em que estão inseridas e principalmente de que o futuro delas depende de nossas ações no presente.

Muitas vezes, nós adultos, menosprezamos e até desrespeitamos as crianças, achando que elas não são capazes de compreender fatos mais complexos que as envolvem, mas estamos enganados. Crianças têm seus jeitos próprios de interpretar o mundo e, se acreditamos realmente que elas são o futuro da nação, devemos começar a olhar para elas de maneira diferente: como pequenos cidadãos.

Pensando sobre esse assunto, nos deparamos com o texto escrito por Irineu Tolentino intitulado Papai, o que é corrupção? Nesse pequeno escrito, o pai trata sobre o intrigante questionamento da filha. Vejamos:

“Minha filhinha, de cinco anos, fez-me essa pergunta enquanto assistíamos ao Jornal Nacional. Ela gosta de me acompanhar nos meus programas preferidos. Não sei se por interesse próprio ou se para comungar comigo os meus gostos e estar ao meu lado. Prefiro acreditar nessa segunda hipótese.

Antes que eu, pensativo, e até um tanto curioso com a sua preocupação (nada pequena para o seu tamanho), desse-lhe uma resposta que me fosse possível, ela emendou:

- Corrupção é quando os políticos pegam o dinheiro da gente?

Diante daquela situação, eu, que nunca havia parado para pensar em como explicar essa questão para uma criança, e sem poder ficar alheio às suas preocupações e dúvidas - pois os pais são o porto seguro dos filhos, os primeiros heróis particulares e reais que eles encontram em suas infâncias -, arrisquei:

- Não filha...não é isso. Corrupção não é quando os políticos pegam o dinheiro da gente. É quando qualquer um pega ou recebe o que não lhe pertence ou não merece. Quem faz o que não é certo, o que não é justo, lesa os outros, furta os bens e direitos alheios, desvirtua o que a moral tutela, é um corrupto. Para isso não precisa ter cargos ou ser alguma personalidade importante. Um pobre pode ser corrupto da mesma forma que um rico. Portanto, esse privilégio (pouco invejável), de tornar-se um corrupto não é só dos políticos, é de qualquer um que queira sê-lo.

- Então um ladrão é um corrupto, papai?

- É também filha...

- Ah...tá! Entendi. Expressou ela dando a nítida impressão de que havia entendido tudinho, como as crianças fazem.

Na verdade, não sei se ela entendeu o que eu tentei lhe dizer...

Após esse episódio, não mais consegui prestar atenção ao jornal. Não por me faltar interesse nas matérias que estavam sendo apresentadas, mas porque, a partir dali, procurei entender o que se passava na cabeça de uma criança que se preocupava com tal coisa. Fiquei, como fico ainda, curioso para saber qual é a dimensão que essa questão tinha na cabeça dela.

E assim, mais uma vez, a nostalgia tomou conta de mim e passei a me lembrar daquele tempo em que as crianças apenas se preocupavam em brincar nas ruas tranquilas enquanto a vida lhe subtraía a infância.”

Nesse sentido, podemos nos questionar também como podemos conversar com as crianças e adolescentes sobre corrupção e política, educando-os para lutarem e mudarem uma sociedade corrupta, tomada pela impunidade e até mesmo buscando constranger os pais quando estes corrompem sem se sentir, como, por exemplo, vendem os seus votos nas eleições, tratando isso como normal, quando sabemos que é nítido ato de corrupção..

A primeira forma de sociedade que uma criança e jovem possuem é a sua família, é através dela que eles se inserem no mundo, daí a importância dos pais em educarem seus filhos, ensinando-os, desde cedo, valores como a honestidade, ajudando-os a desenvolver responsabilidade pelo seu comportamento e a sua consciência.

Em um segundo plano, mas não menos importante está a educação escolar, realizada principalmente pelos professores, que não podem mais se limitar ao conteúdo técnico de suas disciplinas. O âmbito escolar e a convivência com os outros alunos são um ótimo exemplo e teste para a vida adulta em sociedade.

É justamente por acreditar em nossas crianças como cidadãos que podem mudar essa realidade de corrupção, que o Instituto Novo Eleitoral tem o Projeto Cidadania na Escola que discute com estudantes de escolas públicas e privadas temas relevantes para a formação da cultura cidadã entre os jovens, dentre eles, cidadania, democracia, eleições e combate à corrupção.

Herval Sampaio e Márcio Oliveira, realizadores desse pioneiro e voluntário projeto, destacam principalmente aspectos como conceitos de democracia efetiva e cidadania participativa, combate a corrupção em todos os níveis e áreas, a transparência do gestor público e a participação das pessoas na vida das repartições públicas, a fiscalização a atuação dos políticos que foram eleitos.

"O objetivo do Projeto que hoje iniciamos é levar aos jovens, aos estudantes, a mensagem de que é possível mudar o mundo pela atuação consciente a sociedade. E será essa uma das missões do Instituto Novo Eleitoral!" afirmou Herval Sampaio.

Márcio Oliveira, por sua vez, destacou que "no dia em que o cidadão for até a porta da casa do prefeito, do vereador, não para pedir uma ajuda, um remédio, uma cesta básica, mas sim, para cobrar seriedade, para exigir seriedade, transparência, conseguiremos mudar o perfil dos nossos políticos!".

O Instituto Novo Eleitoral intensificará as atividades do Projeto Cidadania na Escola no ano de 2017, como forma de orientar e incentivar os jovens a participarem da vida política de seu município, votando e fiscalizando os políticos que foram eleitos nas eleições municipais deste ano, assim como uma forma de preparação e consciência política para as eleições gerais de 2018, e, quem sabe, para que eles possam no futuro ocupar cargos públicos eletivos, com seriedade e competência cidadã.

Precisamos educar nossas crianças para a cidadania, a convivência social, a consciência política. Se você quer mudar a cara de nossa futura sociedade, vamos começar com uma criança por vez e juntos mudar essa realidade, que somente não será mudada se não quisermos, daí que durante todo esse ano batemos nessa mesma tecla, que ainda continuará sendo tocada no ano que virá, pois não vislumbramos outra saída para que as futuras gerações tenham expectativas bem melhores que a nossa.

Ou você acha possível mudar tudo isso sem educação? Pense nisso e façamos cada qual a nossa parte, dando uma real chance aos nossos pequeninos!