Mesmo com toda a crise política que ronda a Praça dos Três Poderes em Brasília, caiu como uma bomba a notícia dada pelo Presidente da Câmara Eduardo Cunha de que tinha acatado uma das denúncias por crime de responsabilidade contra a presidente Dilma Roussef.

A decisão soou como uma retaliação aos olhos de todos, já que aconteceu exatamente no dia em que o Partido dos Trabalhadores (PT) anunciou que votaria pela continuidade do processo de cassação do mandato de Eduardo Cunha no Conselho de Ética, o que teria, segundo muitos defendem, defagrado a "ira" do Senhor Presidente, que terminou por acatar o pedido formulado pelos juristas Hélio Bicudo, Miguel Reale Junior e outros.

Em inúmeras oportunidades tratamos aqui do assunto, com texto, áudio e vídeo, alertando tanto para a possibilidade do rompimento da tênue relação entre o PT e o PMDB e da relação, ainda mais tênue, entre Dilma Roussef e Eduardo Cunha, relação fictícia essa que se mantinha praticamente pela expectativa implícita de proteção mútua, ainda que abertamente declarada a guerra entre eles.

Não é a toa que notícias divulgadas desde o começo da semana davam conta da possibilidade de Cunha acatar rapidamente a denúncia caso não recebesse o apoio do PT no Conselho de Ética, o que de fato aconteceu. Obviamente que o Presidente da Câmara não irá admitir que acatou a denúncia em represália, fato este que, entretanto, está por demais evidente no contexto em que se deu tal medida.

Mas o que realmente importa nessa celeuma toda não são os motivos ou a forma como se deu a decisão de Cunha, mas sim o que virá e como será efetivamente travada a luta que se segue, seja pelo lado de Dilma Roussef e seu Partido seja pelo lado de Eduardo Cunha e seus aliados.

É que o julgamento por crime de responsabilidade não é um julgamento eminentemente jurídico, mas, primordialmente, político, de modo que o seu prosseguimento e final decisão também dependerá, mais das articulações de cada agrupamento político de que de evidências processuais de ocorrência de irregularidades. A partir de agora, Dilma Roussef e sua articulação política terão que correr para debelar a ameaça que se avizinha e chega muito próximo dela e de seu governo.

Eduardo Cunha, como é sabido por todos, é um político dos mais experientes no cenário nacional, e não é a toa que se elegeu presidente da Câmara dos Deputados em uma disputa contra um candidato do PT, confrontando desde os primeiros dias da nova legislatura contra o partido do governo. Se é certo que ele encontra-se em situação complicada em face dos rumos tomados pelas investigações e pelo andamento do processo de cassação por quebra de decoro parlamentar, certo também o é que ele possui uma articulação política invejável e é possuidor de uma capacidade de manobrar o processo legislativo como poucos, o que leva à indagação de quais seriam seus reais objetivos e até onde eles podem chegar.

E ressalte-se que em uma eventual procedência do impeachement da Presidente quem assumiria o cargo seria Michel Temer, do mesmo partido que Eduardo Cunha, o Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). Ademais, essa se afigura como a chance histórica do PMDB chegar ao mais alto cargo da República, já que desde Ulisses Guimarães o partido não consegue produzir um quadro com envergadura política para se eleger presidente, ainda que sempre obtenha um grande número de cadeiras no Congresso Nacional e se coloque como um dos maiores partidos do Brasil. E todos sabemos que o PMDB não é um partido de meninos ingênuos, crianças inocentes, e, diante de tudo o que está a acontecer, não temos dúvidas que este mantém suas espectativas em relação ao final da história.

Esse, inclusive, é um dos itens que tem que ser considerado pela oposição quando do posicionamento nesse cenário, já que a continuidade do processo e sua eventual procedência levará um ator secundário ao protagonismo, coisa que não nos parece estar bem adequado aos objetivos do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) e do Democratas (DEM), principais opositores do governo.

Vê-se que o cenário não é fácil de ser interpretado e terá muitas variantes a serem avaliadas por todos os analistas políticos, sendo certo que o seu final, para análise de hoje, é imprevisível, mesmo para os mais astutos e conceituados estudiosos.

Por outro lado, decidindo por acatar a denúncia contra Dilma Roussef e deflagrar o processo de impeachment, Eduardo Cunha gasta sua última munição, guardada até então como moeda de troca contra o PT e seus aliados, ficando agora tão-somente com seus correligionários e apoiadores mais próximos, apoio esse que será colocado em cheque à medida em que o processo segue no Conselho de Ética. Mas quem conhece Eduardo Cunha sabe que ele não é de dar ponto sem nó, e se ele se decidiu por tomar essa decisão agora ainda deve ter algumas balas no gatilho, seja para negociar diretamente com o governo seja para pressionar deputados a votarem de uma maneira ou de outra.

Há ainda duas vozes que certamente serão ouvidas pelos congressistas, que é a voz das ruas e do mercado financeiro.

Como trunfo a seu favor o PT possui a capacidade financeira, técnica e humana de mobilização para realizar grandes manifestações, o que poderá trazer alento à Presidente se forem adequadamente realizadas por todo o País, o que pode levar o Congresso a se posicionar favorável à manutenção da mesma no cargo. Por outro lado, a popularidade da Presidente está quase a zero, podendo a oposição, acaso consiga coesão suficiente, aproveitar-se para também realizar manifestações significativas e colocar pressão no governo e no Congresso Nacional.

O mercado financeiro, sem sombras de dúvidas, também será uma voz a ser ouvida, já que a dependência na qual o País se colocou em face da crise econômica vivida, torna esse um aspecto fundamental, que pode ser um dos fiéis da balança. Ora, se a economia piorar daqui pra frente e os efeitos dessa crise agravarem-se, não resta dúvidas que a situação da Presidente se agravará. Por outro lado, se a situação econômica melhorar no curto prazo ou apontar para uma melhoria de médio e longo prazo, a balança penderá para o lado da Presidente, possibilitando uma crença em sua salvação.

Quem perde com tudo isso certamente é o País, somos nós, pobres mortais, que amargaremos mais alguns meses de estagnação política, com todo o seu impacto na vida de cada um, com todo o seu impacto na economia, com todo o seu impacto na visibilidade externa do País, com todo o seu impacto na Administração Pública, com todo o seu impacto no nosso dia-a-dia.

Mas as épocas de crise servem, quando menos, para separar o joio do trigo, para trazer novos atores ao cenário. E são muitas sementes que precisam ser separadas.

Quanto a Dilma Roussef, em que pese nenhuma denúncia até o momento ter chegado próximo dela a ponto de macular a sua seriedade ou correção pessoal, tem-se afigurado à sociedade como uma gestora com imensas limitações do ponto de vista técnico, tanto é que a suas ações quando presidente do Conselho de Administração da Petrobras culminaram com um prejuízo incalculável, ainda em fase de apuração no poder judiciário, na Polícia Federal, na Controladoria Geral da União (CGU), no Tribunal de Contas da União (TCU) e no exterior, a partir de centenas de processos judiciários e administrativos que existem.

Não há dúvidas, entretanto, aqui para nós, que o tempo que chega requer de cada pessoa, de cada cidadão, uma ação contundente para que possamos acreditar em um futuro no qual a honestidade, a transparência, a correção dos homens públicos seja a regra, pois enquanto gestores, agentes políticos ou não, utilizarem a máquina pública com o dinheiro dos contribuintes para enriquecimento pessoal e para movimentar a máquina de manutenção de seu grupo no poder, não poderemos dizer que vivemos em um estado de direito, e muito menos democrático.

E enquanto o eleitor vender seu voto por trinta dinheiros, seja ele em notas diretas, seja na forma de cargos públicos, seja travestido em benefícios e programas sociais, não elevaremos nossa sociedade ao patamar necessário para garantir a todos uma vida digna e condizente com a pessoa humana.