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A operação estava concluída. Anos e anos de investigações, escutas telefônicas, homens infiltrados, vasto repertório de provas irrefutáveis…. Um sucesso geral. Operação Lava-jato era fichinha perto dessa. O país iria virar de cabeça pra baixo. Com certeza a maior operação policial do Brasil, provavelmente do mundo.

Os mandados de prisão, que não eram poucos, nem de gente miúda, já estavam todos prontos. Era coisa de centena de uma cacetada só. Como se dizia na época do Fiat Elba: “Era nitroglicerina pura”. Neste caso, uma ogiva nuclear pura.

Já passavam das duas da manhã e os mandados seriam cumpridos à partir das seis. Com isso, toda a história viria a tona, o movimento da federal nas mansões mais badaladas do país iria pipocar Brasil afora e a imprensa estaria, no máximo, às 6:15 na porta da PF querendo saber detalhes.

Agora era só o diretor-geral dar o start final e botar a operação na rua, como se diz. Ligaram pro chefão e pela cara do delegado responsável pelo caso ao telefone vinha bronca do lado de lá da linha. Ele disse apenas um sim senhor e desligou. Todos na sala queriam saber o que tinha acontecido. Um silêncio sepulcral.

- Severiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiino! Cadê você?

Todos na sala começaram a procurar Severino. Sem ele a operação não sairia.

Severino José da Rocha Vasconcelos. Trinta anos de PF. Um dos salários mais altos da Federal. Não ia pras ruas, não investigava, não prendia, não era agente infiltrado. A bem da verdade, nem atirar direito ele sabia. Mas, sem ele, a operação era fracasso garantido.

Sua função: o agente responsável por dar nome às operações da Policia Federal. Gênio. O cara dos nomes como é conhecido.

Fico imaginando o preparo, o conhecimento, e, acima de tudo, a fertilidade de imaginação. Como o cara consegue fazer a ligação entre o fato, o delito e a mitologia grega, os deuses do Egito, a bíblia, os astros da via láctea, os personagens de filmes famosos….

Vou só dar um exemplo: A operação Hidra de Lerna, que foi um desdobramento da operação Acrônimo. Vou tentar explicar por partes: começo pela operação que deu origem que é a “Acrônimo” – o nome se deve ao fato de que o prefixo da aeronave onde foram encontrados 113 milhões em dinheiro de corrupção é formdo pelas iniciais dos nomes dos familiares do principal investigado. Acrônimo é uma palavra/sigla formada pelas iniciais de várias palavras. Acontece que quando a operação chegou a um dos líderes de uma organização criminosa ela se desdobrou em dois novos inquéritos. virando portanto a operação Hidra de Lerna, em referência à monstruosa figura da mitologia helênica que, ao ter a cabeça cortada, ressurge com duas cabeças.

Ora, vá ter imaginação fértil assim lá no Olimpo. Como diabos é que Severino consegue fazer essas ligações e chegar tão distante assim?

Só pra ilustrar vou passar alguns nomes. Pesquisem na internet o significado do nome porque vale a pena e eu não posso aqui contar todos porque senão não acabariamos este texto.

Zelotes, Esfinge, Cui bono?, Liviatã, Niágara, Simão, Conclave, Anteros, Omertà, Vidas secas, Casablanca, Ratatouille, Ilusionista, Acarajé, Aletheia, My way…. Haja imaginação do nosso Severino

Mas vocês acham que as operações da Polícia Federal teriam a mesma repercussão se não tivessem esses nomes criativos? Já pensou se ao invés de Lava-jato fosse apenas a operação 23.475/2009? Tinha nem graça. Acho que não tinham prendido nem a metade desse povo.

Eu acho que tão importante quanto as investigações e as provas é o nome da operação. Sem ele acho que nada daria certo. Ou seja, Severino é realmente o cara.

Mas Severino coitado, não foi trabalhar naquele dia e ninguem soube do paradeiro dele. Reza a lenda que à noite ele e a esposa deitados na cama comendo uma pipoquinha e ela teria pedido a ele para dar o nome para uma viagem que eles estavam programando à anos pelo velho continente. Pediu e ainda condicionou: mas tem que ser um nome bem criativo como o das operações. Ele cansado de tanto pesquisar nomes para a PF e pra se livrar logo da incumbência, nem pensou muito e soltou um –  que tal Vasconcelo’s viajantes? Mal acabou de pronunciar o viajantes a tijela de pipoca viajou bem no meu da sua cara e ela desfilou um repertório de xingamentos e palavrões bem mais criativos que os nomes das operações.

Só resta agora esperar que ele se restabeleça e volte logo a trabalhar. Montanhas de processo de operações estão na sua mesa para a devida nomeação. E o chefão já sentenciou: Sem nome não sai nenhum.

Renato Vilar

Aprendiz de cronista, autor do livro "Aprendiz de Gigolô" e ABCdista. Se não fossem os defeitos, vícios e pecados seria um sério candidato a santo. Ah, e agora Aprendiz de Blogueiro!

Publicado originalmente em:

O cara dos nomes (http://portalnoar.com.br/aprendizdegigolo/)