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A técnica de debate mais usual na emasculada modernidade “delirante” é atacar e, quando retorquido, se fazer de vítima.

É o desenho fiel de uma sociedade mimada, hiperbolizada em direitos, que se recusa a reconhecer seus deveres. É o vício na sensação de se considerar acima de qualquer consequência para suas condutas, acreditando que o mundo tem a obrigação de garantir a satisfação de seus desejos, po mais torpes que sejam.

É assim que os boquirrotos passam adubando a mídia com suas opiniões fundadas na solidez de seus preconceitos, no desiderato de colher os tíbios aplausos de uma claque de zumbis que celebram até tampa de panela vermelha caindo no chão.

E foi assim que a a futura ministra do Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves, tornou-se alvo dos sábios (de)formadores de opinião por uma declaração insólita de sua infância.

Disse Damares, em um vídeo disponível na internet, durante uma cerimônia religiosa que, quando criança, foi vítima de abuso sexual por um pastor. Tamanho era seu sofrimento pelos reiterados ataques que decidira por fim à sua vida com veneno.

No alto de um pé de goiabeira a menina pobre e violada disposta ao suicídio viu Jesus, e esse encontro lhe deu forças para continuar e lutar, como vem lutando, contra a pedofilia e o estupro.

Contudo, em vez do foco do problema ser o alarmante índice de crianças vítimas de predadores sexuais pelo Brasil, os sábios espantalhos decidiram fazer troça da história da menininha que viu Jesus na goiabeira.

Isso é errado de tantas maneiras que é difícil enumerá-las, mas algumas merecem destaque.

A primeira delas é que essa gente não luta contra o abuso infantil, a igualdade das mulheres ou a liberdade religiosa. Lutam por uma ideologia. Se há coincidência de narrativas, ou seja, se a história da vítima de pedofilia coincide com os fins da ideologia, será incensada pela grande mídia e os (de)formadores de opinião.

Não só. A menina pobre que não tinha nenhum traço de cultura elevada, mas já tinha ouvido sobre Jesus como é comum, viu nessa figura seu salvador. Quando ninguém a ouvia e protegia, essa figura o fez.

E por não conhecer a riqueza de um Vaticano, a beleza de um palácio de Versalhes ou as complexidades de uma catedral gótica, viu Jesus dentro da sua realidade: um pé de goiabeira numa cidadela pobre do Brasil esquecido por seus autoproclamados salvadores.

Damares não cabe na narrativa “progressista”, porque mulher cristã e conservadora. Porque futura ministra de um governo que causa antipatia dos seus críticos. Resta a ridicularização. É engraçado quando uma criança estuprada diz que somente não se matou por haver encontrado Cristo numa goiabeira.

Os mesmos indivíduos que acham lindo a letra de funk que estimula o sexo explícito, o crime e a violência, dizendo que seus intérpretes estão expressando sua realidade de favela (o que não é verdade), faz piada com a menina do sertão que só conhecia a goiabeira como única realidade para seu encontro com Cristo.

Que chance perdem esses espantalhos do bom senso de debater e expor a exploração infantil brasileira nua e crua, sem a maquiagem das novelas e programas televisivos, preferindo focar na na tentativa de, mais uma vez, desqualificar a vítima.

Sempre a desqualificação da vítima, o que joga mais para as sombras do medo e da vergonha aquelas que buscam a coragem de dizer o que lhes aconteceu, ou ainda acontece.

Sim, é claro que não concordo com tudo o que a ministra diz e, como cristão, tenho justo receio de todo o fundamentalismo religioso.

Mas é inegável que a intrepidez de dizer o que lhe aconteceu produz efeitos muito positivos no mundo para quem está na mesma situação.

A pequena criança que era Damares recebeu um abraço apenas da figura de Jesus, porque ela não tinha mais ninguém a recorrer. E o que fazem as pessoas? Riem. Ridicularizam. Essas vítimas devem ser acolhidas e abraçadas, não por figuras espirituais, mas por braços fortes capazes de protegê-las e de fazer Justiça.

É verdade que a figura de Jesus foi explorada por pessoas más, dispostas a destruir, a enriquecer, a fomentar a ignorância e o mal. Mas é igualmente verdade que Jesus também foi a inspiração de inúmeros famosos e infinitos anônimos que buscaram força em sua mensagem para fazer o bem e se opor aos desmandos do mundo. Eu sei porque eu vejo isso ocorrer diariamente, para o bem e para o mal.

Os maus podem usar o bem como desculpa para suas maldades, e isso é algo inevitável, porque sempre usarão algo. É como culpar a arma por matar alguém, quando a responsabilidade foi de quem apertou o gatilho.

A mensagem de Damares é clara: há crianças, há pessoas em situação de indignidade que precisam de socorro imediato. Quem, como eu, já ouviu de lábios infantis as atrocidades que foram cometidas contra si por um adulto, quem, como eu, já viu crianças demonstrarem com gestos e palavras o que lhes foi feito, quem, como eu, mais de uma vez chegou em casa tarde da noite e chorou pela injustiça do mundo, nunca teria coragem de rir da história de Damares.

Pelo contrário. Se uniria em indignação para exigir justiça, justiça real, verdadeira, não a do desencarceramento e da mitigação da culpa do criminoso, que está na moda.

Tanto faz se a criança achar força em Jesus, em Buda, em Iemanjá, em Odin, no Pato Donald ou na Turma da Mônica. Melhor ainda seria se ela soubesse que os adultos estariam ali para ouvi-la e protegê-la.

Não dá para rir da pedofilia, e também não dá para rir de quem faz piada disso.

Eduardo Perez Oliveira
Juiz de Direito

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