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Por Affonso Ghizzo Neto – 30/07/2017

IMAGENS DISTINTAS REFLETIDAS NUM ÚNICO ESPELHO. RETRATOS CONSEQUENTES, FRUTOS DE UMA ÉTICA DE APARÊNCIA RESPONSÁVEL. É EXATAMENTE O RETRATO HUMANO QUE POSSIBILITA A CONSIDERAÇÃO FINAL DE SEUS ATOS. SOMENTE ATRAVÉS DE UM AGIR CONSCIENTE – CIENTES DO MAL-ESTAR PRESENTE NA CIVILIZAÇÃO –, É QUE PODEREMOS ALCANÇAR A REFLEXÃO NECESSÁRIA À COMPREENSÃO DE UM MUNDO TÃO DESIGUAL: “DE UM LADO, ESTE CARNAVAL, DE OUTRO, A FOME TOTAL”.[1] 

PRÓLOGO 

Chamaram a atenção os retratos fotográficos fixados na parede central do museu. Era uma sequência fotográfica muito estranha, ao mesmo tempo fascinante e angustiante. Eram três fotografias retiradas de frente ao mesmo espelho.

A foto central, focada na própria imagem da fotógrafa no espelho, demonstrava aparente satisfação pela exibição do corpo feminino. A fixação do próprio corpo parecia demonstrar excessiva vaidade, algo necessário para satisfação pessoal da própria autora do retrato. De qualquer forma, os olhos, reluzentes, pareciam transparecer algo incompreensível.  Não sei bem descrever o quê. Uma possível contradição entre alegria e tristeza, entre estabilidade e desequilíbrio. Um mistério fascinante, como seu olhar pudesse enxergar algo muito além do próprio reflexo no espelho.

A foto esquerda, retirada de um ângulo transversal, focada a distância, captava no espelho o reflexo de um lindo gesto: era uma criança beijando o rosto da avó. A felicidade dos personagens retratados na fotografia transparecia evidente, como a água cristalina que brota da rocha. O contraste entre os rotos da criança e da avó – o primeiro, liso, e o segundo, enrugado – demonstrava a força do tempo, deixando nítida a discrição da mortalidade humana. O mais surpreendente, todavia, era que o olhar da avó parecia indicar algo enigmático. Um olhar conformado e inconformado, satisfeito e insatisfeito, como um vazio dentro do peito. Um olhar com alma, que parecia buscar responder perguntas sem respostas.

A foto da direita, também transversal, entretanto focada em ângulo oposto, espelhava um mendigo abandonado na rua. A pele parecia plastificar os ossos do corpo, todos visivelmente salientes. Caído ao chão, seu olhar se direcionava aos céus, como se procurasse uma acolhida divina, querendo entender o porquê de tanto sofrimento. Chocava a indiferença das pessoas que transitavam pelo local. Parecia que o mendigo era invisível. Sua presença, inconveniente, era um estorvo.

O GRANDE DILEMA 

O dilema da humanidade é saber conviver com a certeza da mortalidade. Pensar e refletir sobre o desconhecido pode causar um mal-estar na civilização. Um vazio dentro do peito que parece não poder ser preenchido sem a metafísica, sem a fé ou outra crença hipotética. O saber humano é um trabalho doloroso contínuo de construção reflexiva, situação esta que causa muitas vezes a repulsa ao pensamento crítico, sendo mais fácil “viver em paz” numa sociedade de massa conformada e sem questionamentos.

O sujeito – idiota – vive isolado na incerteza de seu próprio mundo, conhecendo somente a si mesmo, preso aos seus caprichos, desejos e paixões. Escravo único de seu próprio gozo mortífero. Aliás, segundo Lacan, é justamente a divisão do gozo a essência do direito.[2] Conforme as necessidades sociais para satisfação do gozo, o direito pode ser flexibilizado, causando uma evidente desestruturação social. A eterna busca pelo gozo interminável, a procura do objeto perdido que nunca foi encontrado. É justamente a eliminação da ausência natural humana, enquanto ser faltante, que promete a impossível satisfação plena e completa.

O sujeito acaba por adotar um padrão falso de avaliação, determinando o gozo com objetivo de sua própria existência, deixando de considerar tudo aquilo que realmente tem valor e sentido no exercício da experiência da vida. Aliás, esta avaliação ganha contornos dramáticos quando considerada a diversidade e as diferenças entre os pensamentos dos diversos sujeitos. A situação, complexa, não pode ser resumida ou delimitada.

Sigmund Freud[3], ao abordar o sentimento religioso – segundo sustenta uma ilusão considerada a partir de um sentimento de eternidade –, relaciona-o com o sentimento do próprio ego (eu), sentimento subjetivo autônomo e unitário, determinado por seus limites externos e internos. O ego, por sua vez, é continuado internamente, defrontando-se sem limites definidos com uma entidade mental inconsciente, identificada como id. No sentido exterior, o ego parece definir limites determinados e nítidos. Todavia, presentes processos patológicos diversos, as linhas fronteiriças entre o ego e mundo exterior podem sofrer imprecisões e incertezas. Com o processo de desenvolvimento do ego, preservados, em princípio, a vida mental do indivíduo, surge um sentimento “oceânico” plural. O ego primitivo identifica-se com a busca do prazer. A criança, recém nascida, encontra no seio da mãe a satisfação e o alimento necessário à vida. A retirada do peito materno é resolvida através do choro reiterado. “Desse modo, pela primeira vez, o ego é contrastado por um ‘objeto’, sob a forma de algo que existe ‘exteriormente’ e que só é forçado a surgir através de uma ação especial[4].

Surge então a necessidade de isolar o ego, uma proteção sentimental, um vínculo universal e ilimitado em busca do prazer eterno, com a rejeição de perigos, ameaças, perdas ou frustrações provenientes do mundo exterior. Ocorre que o ego, ao identificar excitações desagradáveis internamente, acaba por utilizar os mesmos métodos utilizados contra as sensações exteriores indesejadas, o que causa diversos distúrbios patológicos. O ego acaba por incluir tudo na mesma forma de repulsa, confundindo, interno e externo. O ego, portanto, seria algo compatível com o sentimento religioso defendido por muitos. “A ‘unidade com o universo’, que constitui seu conteúdo ideacional, soa como uma primeira tentativa de consolação religiosa, como se configurasse uma outra maneira de rejeitar o perigo que o ego reconhece a ameaçá-lo a partir do mundo externo[5].

A religião acaba por explicar os enigmas da vida com perfeição invejável, impondo a todos seguidores um caminho próprio para aquisição da felicidade e para a proteção contra o sofrimento. Todavia, o eventual encontro “do nada”, pode tornar este caminho uma desagradável decepção. Mas por que é tão difícil encontrar a felicidade? Freud identifica três fontes do sofrimento humano: a) o poder superior da natureza; b) a fragilidade de nossos corpos; e c) a inadequação das regras de convivência. É justamente a última – como fonte social de sofrimento – que não é admitida pelo sujeito. Reconhecer e compreender a inadequação destas regras, pode, gradualmente, ajudar a alterar a satisfação do sujeito com o desiderato de melhorar a convivência da civilização. A negação ou a incapacidade de reflexão consciente, também intitulada de “pobreza psicológica de grupos”, é obstáculo espinhoso a ser superado em busca deste redescobrimento do próprio sujeito[6].

Teremos forças para encontrar o caminho de volta? Conseguiremos enfrentar esta incerteza tormentosa? Ou destruiremos o planeta e a nós próprios? O mal-estar da civilização deve ser compreendido a partir do desenvolvimento cultural da humanidade com o domínio da perturbação do sujeito, causa da incompreensão de sua natureza faltante, de ser incompleto que é, e sempre será. Eis o grande dilema da humanidade.

Como conviver com este mal-estar civilizatório? As novas patologias da alma são fotografadas como cenas comuns no cotidiano. A recusa em assumir as consequências de ser faltante e incompleto, determina ao sujeito a insaciável busca pelo gozo eterno. Através de um registro fotográfico, segundo afirma Giorgio Agamben, se pode mostrar um rosto, um objeto, um acontecimento qualquer que certamente será convocado a comparecer ao juízo final. É a consideração responsável pela prática dos próprios atos. De que maneira esta alma, capturada pela lente de uma foto, é imortalizada pelo anjo do juízo final? Existe uma relação secreta entre o gesto e a fotografia. O sujeito retratado na foto exige algo de todos nós. A imagem fotográfica representa muito mais do que uma simples imagem. Representa o encontro entre a cópia e a realidade, entre a recordação e a esperança. A foto possibilita a análise de todos os atos humanos capturados pela lente fotográfica, sendo autêntico testemunho dos acontecimentos presentes e passados da humanidade.[7] 

EPÍLOGO 

Ao sair do museu deparei-me com uma estátua de Sócrates. Inevitável foi recordar seus ensinamentos: “Só sei que nada sei”. A história do sujeito edificada através da própria negação e do espírito crítico necessário à compreensão da pergunta sem resposta é ignorada por muitos. O que somos? Pergunta Platão! Mas o que irá acontecer? Conveniente recordar que o nosso futuro será como nós quisermos. Representando a responsabilidade individual pela prática dos atos edificados, a consequência natural da (in)consciência humana.

Com a consciência crítica presente, fotografias e retratos poderão ser compreendidos plenamente. Os olhares retratados nas fotos com os reflexos no espelho, ainda serão os mesmos, todavia, diversa a compreensão. Nem melhor, nem pior, mas conscientemente diversas. Com a consciência e a responsabilidade apuradas, num futuro distante, mendigos esquecidos às ruas, não mais serão ignorados, embora ainda inconvenientes para muitos, não mais passarão desapercebidos como simples bazófias humanas descartáveis.

O retrato fotográfico congela a imagem do ser. Simples ou complexa – não importa – uma imagem com responsabilidade que deve ser analisada. É preciso conviver com as adversidades, tolerar as diferenças, dividir os espaços e as matérias. É necessário compreender este vazio dentro do peito, situação sem a qual se tornará muito mais breve a existência da raça humana e a vida planetária.

Imagens distintas refletidas num único espelho. Retratos conseqüentes, frutos de uma ética de aparência responsável. É exatamente o retrato humano que possibilita a consideração final de seus atos. Somente através de um agir consciente – cientes do mal-estar presente na civilização –, é que poderemos alcançar a reflexão necessária à compreensão de um mundo tão desigual: “De um lado, este carnaval, de outro, a fome total”.[8]


Notas e Referências: 

[1] A Novidade – Paralamas do Sucesso.

[2] LACAN, Jaques. O seminário – mais, ainda. Livro 20. RJ: Jorge Zahar, 1985, p. 10-11.

[3] FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. RJ: Imago, 1997, p. 9-20.

[4] ___. IDEM. p. 13.

[5] ___. IDEM. p. 19.

[6] ___. IDEM. p. 38.

[7] AGAMBEN, Giorgio. Profanaciones. Tradução de Edgardo Dobbry. Barcelona, Editorial Anagrama. 2005. p. 29-35: La fotografía exige el recuerdo de todo esto, lãs fotos dan testimonio de todos estos nombres perdidos, como el libro de la vida que el nuevo angel apocalíptico – el angel de la fotografía – tiene entre lãs manos al final de los días, es decir todos los días.

[8] A Novidade – Paralamas do Sucesso.

AGAMBEN, Giorgio. Profanaciones. Tradução de Edgardo Dobbry. Barcelona, Editorial Anagrama. 2005.

ARENDT, Hannah. Responsabilidade e julgamento. Tradução: Rosaura Eichenberg. São Paulo, Companhia das Letras. 2004.

FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização. Tradução de José Octávio de Aguiar Abreu. RJ: Imago, 1997.

LACAN, Jaques. O seminário – mais, ainda. Livro 20. RJ: Jorge Zahar, 1985.

Fonte: http://emporiododireito.com.br/o-grande-dilema-o-mal-estar-civilizatorio-por-affonso-ghizzo-neto/