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Um dos melhores e mais premiados documentários do país – um dos meus favoritos, diga-se –, Anos JK – uma trajetória política (1980), dirigido por Sílvio Tendler, traz logo em seus créditos iniciais uma frase que sempre me vem à mente quando diante do esquecimento de interlocutores ou mesmo grupos políticos, de fatos ocorridos em nossa história, alguns até protagonizados por estes. Citando Ivan Lessa, Editor de “O Pasquim” (69-1991), semanário que se opunha ao regime ditatorial, Sílvio Tendler lembrava que “De quinze em quinze anos o Brasil esquece tudo que aconteceu nos últimos quinze anos.”.

Pois bem, a despeito da opinião da Sra. Presidente da República, a manifestação dos cem – ou duzentos – mil sobre Brasília, no dia 13 de Março, é, diferentemente do seu governo, dos que têm rumo. O rumo dos que querem mudar essa política econômica causadora do desemprego e da miséria. O rumo dos que querem um Brasil soberano e não subserviente. O rumo dos que querem uma vida melhor para todos e não somente para uma pequena elite econômica.

As entidades que organizam as manifestações sabem, porém, que em seu rumo existe um grande obstáculo: o governo Dilma Rousseff, que com seu discurso de modernidade procura encobrir o que há de mais retrógrado e atrasado na política brasileira, dando um verdadeiro golpe no povo brasileiro – o que, aliás, reflete-se nas pesquisas de opinião.

Mas, por maior obstáculo que seja, nada impede que ele venha a ser superado, afinal esta é a história da humanidade.

Essas fortes palavras, nesses três parágrafos anteriores não são meus. Tão pouco foram escritos por algum dos organizadores das maciças manifestações de 13 de Março de 2016, por incrível que pareça, tão pouco são de algum politico do PSDB, DEM ou outro partido opositores do governo da Presidente Dilma Rousseff e do PT. Fiz sim algumas pequenas mudanças, mas em nada modifiquei o conteúdo conforme abaixo se verá.

Mas então poder-se-ia questionar: de quem são então essas palavras? Por incrível que pareça, são de um ex-presidente da Central Única dos Trabalhadores – CUT, membro do Partido dos Trabalhadores e ex-tesoureiro do Partido. Enfim, passo a transcrever a nota original:

A despeito da opinião do sr. presidente da República, a Marcha dos Cem Mil sobre Brasília, no dia 26 de agosto, é, diferentemente do seu governo, dos que têm rumo. O rumo dos que querem mudar essa política econômica causadora do desemprego e da miséria. O rumo dos que querem um Brasil soberano e não subserviente a especuladores internacionais e ao FMI. O rumo dos que querem um vida melhor para todos e não somente para uma pequena elite econômica.

As entidades que organizam a Marcha dos Cem Mil sabem, porém, que em seu rumo existe um grande obstáculo: o governo Fernando Henrique Cardoso, que com seu discurso de modernidade procura encobrir o que há de mais retrógrado e atrasado na política brasileira, dando um verdadeiro golpe no povo brasileiro – o que, aliás, reflete-se nas pesquisas de opinião.

Mas, por maior obstáculo que seja, nada impede que ele venha a ser superado, afinal esta é a história da humanidade.

São Paulo, 24 de agosto de 1999.

João Vaccari Neto

Vice-presidente Nacional da CUT

Isso mesmo, o autor dessa nota tão dura (NOTA DA CUT SOBRE A MARCHA DOS 100 MIL[1]) foi o ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores – PT e condenado na Lava Jato, João Vaccari Neto diante da maior manifestação contra o Governo FHC, realizada em 1999.

Realizada na manhã do dia 26 de Agosto de 1999 e organizada por entidades da sociedade civil, sindicatos e por partidos da oposição, liderada pelo maior partido da oposição da época, o Partido dos Trabalhadores. Foi a primeira e maior manifestação contra o Governo FHC em seis anos e protestava principalmente contra a corrupção do governo federal. Contudo, os diferentes segmentos da oposição divergiam sobre se deveriam ou não pedir o afastamento do então presidente Fernando Henrique Cardoso.

Fortemente motivados pela queda de popularidade de FHC, pelo desemprego que chegava a 10 milhões de brasileiros, juros altos que minguava a produção industrial e oprimia o comércio, a marcha sobre Brasília foi a primeira com objetivo declarado de protesto contra a política econômica do governo, mas dividia os segmentos oposicionistas, como dito no paragrafo anterior, quanto a questão do Impeachment do Presidente da República, tese defendida avidamente pelo Partido dos Trabalhadores.

Sobre isso, vale lembrar a famosa frase do então Deputado Federal e Presidente do PT, hoje condenado no Mensalão e na Lava Jato, José Dirceu, quando às vésperas da histórica manifestação de 1999, após entregar nas mãos do então Presidente da Câmara dos Deputados, Michel Temer o pedido de impeachment do Presidente Fernando Henrique Cardoso – um dos vários protocolados pelo PT –, poucos meses após sua posse para o segundo mandato, ao ser questionado sobre os pedidos, em particular o que acabará de entregar ao Presidente da Câmara disse: “Qualquer deputado pode pedir à Câmara a abertura de processo contra o presidente.” e completou: “Dizer que isso é golpe é falta de assunto.”.

Naquele tempo, nas palavras do líder do PT, para o Impeachment do Presidente da República, não se precisava sequer de provas pois “É publico e notório e dispensa provas!.” falando do que considerava ato de improbidade. E não cabe dizer que era voz isolada pois, como se sabe, era a posição oficial do Partido dos Trabalhadores, tanto é que no ato de entrega do pedido, lá estavam – saíram na foto, como dizem – o futuro Presidente Lula e outras lideranças petistas que hoje chamam de golpista quem se manifesta favorável ao instituto constitucional, estando tudo bem registrado, inclusive podendo ser verificado em simples busca por vídeos e fotos na grade rede.

Pois bem, aconteceu a manifestação no dia 26 e foi linda, Brasília foi invadida por milhares de pessoas de todo o país que tomaram o gramado da Esplanada dos Ministérios,  insatisfeitos com o governo, sua politica econômica e com a corrupção, dessas uma boa parte capitaneadas pela militância petista, com gritos e cartazes pediam o impeachment do ex Presidente FHC.

Prestes a completarmos 17 anos do, até então, maior protesto já realizado na capital federal, o Brasil vive a maior crise de sua história e em resposta, neste domingo, 13 de março de 2016, o povo Brasileiro foi às ruas para a maior manifestação politica da história do país, com milhões de pessoas espalhadas por mais de 400 cidades em todos os Estados da federação, com cartazes, gritos de ordem e cantando o Hino Nacional de forma ordeira e pacifica, em protesto contra o governo, motivados em parte pela politica econômica desastrosa dos últimos anos, altíssima taxa de juros e, especialmente, pelo estelionato eleitoral de 2014, por outro lado, pela corrupção que se mostrou sem precedentes em sua forma e dimensão. Outros pontos das manifestações foram o apoio à Justiça, ao Ministério Publico e à Polícia Federal e contra o ex presidente Luiz Inácio da Silva.

Curiosamente, na capital federal, a Polícia Militar estimou em cerca de cem mil pessoas enquanto os organizadores apontam que duzentas mil pessoas participaram do ato. Independentemente desta disparidade, o que se vê em fotos e vídeos desta manifestação, comparado com os de outras é que, sem sombra de dúvidas, esta foi a maior manifestação na capital candanga, superando justamente a Marcha dos 100 mil de 1999, liderada pelo atual alvo dos protestos, o Partido dos trabalhadores.

As duas manifestações não tem apenas o tamanho como semelhanças, suas motivações são muito parecidas. Já quanto às diferenças, poderíamos dizer que: 1) na primeira, a manifestação foi organizada por partidos de oposição e segmentos sociais liderados pelo Partido dos Trabalhadores, enquanto as últimas são realizadas pela sociedade civil organizada, rejeitando a participação de partidos e políticos e em 2) segundo lugar, há uma inversão no “polo passivo” na medida em que naquela era o Governo do PSDB, até certa medida antagônico ao atual alvo dos atos democráticos, o PT, que naquela ocasião pedia o impeachment, hoje se opunha ao mesmo, proposto contra a Presidente, membro de seus quadros.

Ou seja, a grande verdade e em suma, é que a diferença central é quanto a quem está sendo protestado. Nessa linha, causa indignação ver a tentativa patética e antidemocrática de tentar deslegitimar as manifestações do dia 13 de Março, legitimidade já bem demonstrada em outros artigos de proeminentes juristas, publicados recentemente neste mesmo espaço pois, em essência, as manifestações do dia 13 não diferem do ato de 1999, celebrado pelos que ora taxam como golpe o lindo exercício democrático visto nesse domingo.

Não se trata aqui de uma defesa do Impeachment da Presidente Dilma Rousseff ou de um ataque ao Partido dos trabalhadores, mas da exposição da incoerência absurda demonstrada pelo referido partido, seus aliados e militantes, quando atacam uma manifestação popular expressiva como a de domingo e/ou quando chamam de golpistas os que apoiam o impeachment da atual Presidente da Republica, quando se sabe que, historicamente, foi o Partido dos Trabalhadores o maior organizador de manifestações contra governos presidenciais pós Constituição de 1988, bem como, o partido que mais pedidos de impeachment protocolou junto a mesa da Câmara dos Deputados.

A Marcha dos Cem mil de 1999 é um tapa na cara de todos os que lançam sobre as manifestações de 13 de Março a pecha de golpista e uma prova irrefutável da incoerência do Partido dos Trabalhadores que demonstra ter se esquecido de tudo que aconteceu nos últimos quinze anos.